Quando a Geopolítica Dita as Regras
Em nossa última carta mensal, comentamos da importância de ficarmos atentos aos conflitos de poder entre países, que muitas vezes se tornam tão ou mais relevantes que a próxima decisão de política monetária ou a última divulgação de dados macroeconômicos. Fevereiro foi mais um mês em que manchetes econômicas foram coadjuvantes, enquanto geopolítica e a aceleração da inteligência artificial dominaram a agenda dos mercados.
O ritmo de evolução da IA vem surpreendendo até os mais entusiastas da tecnologia, intensificando o debate sobre os possíveis impactos no mercado de trabalho. O catalisador desse movimento ao longo do último mês foi o novo lançamento da Anthropic, o Claude e seus novos agentes (Cowork), capazes de automatizar tarefas complexas em setores como jurídico, vendas, marketing e finanças. Entramos, portanto, em uma fase do desenvolvimento de IA em que a aplicabilidade se torna evidente e o risco de substituição da mão de obra humana começa a se concretizar. As empresas mais afetadas nesse primeiro momento foram as do segmento de Software as a Service (SaaS), em um movimento que o mercado apelidou de “SaaSpocalypse”, que eliminou centenas de bilhões de dólares em valor de mercado. O ETF iShares Expanded Tech-Software Sector (IGV) acumula queda de mais de 17% no ano, refletindo a ameaça de substituição dos principais serviços dessas empresas por agentes de IA.
Esse debate também movimentou a curva de juros nos Estados Unidos, que registrou fechamento em todos os vértices, com destaque para a parte mais longa da curva, que vinha pressionada por dois fatores: as preocupações com a sustentabilidade fiscal americana e as instabilidades institucionais que alimentaram a narrativa de desvalorização do dólar. As inovações em IA reforçaram, no entanto, a narrativa de ganhos de produtividade, desaceleração do mercado de trabalho, desinflação e possível recessão à frente, o que acabou levando à compressão do prêmio de risco nos yields longos.
Enxergamos esse movimento com certo ceticismo. Não por não acreditarmos em ganhos de produtividade gerados por IA, mas por não acreditarmos que isso levará a um colapso do mercado de trabalho e consequente crise econômica em um horizonte de curto e médio prazo. Os dados mais recentes de emprego, inclusive em profissões ligadas ao desenvolvimento de software, mostram resiliência e até recuperação recente. Ademais, a automação impulsionada por IA é um choque positivo de oferta, que no final aumenta a renda real e o potencial de consumo. Historicamente, as revoluções tecnológicas não eliminaram o trabalho como insumo, e sim alteraram a composição das tarefas e criaram novos empregos.
Passando ao segundo grande tema do mês: a geopolítica. Fevereiro ficou marcado pela crescente tensão entre Estados Unidos e Irã, que culminou na invasão ao país no último dia do mês, em uma operação denominada Epic Fury, com apoio de Israel. Antes de qualquer análise, é fundamental reconhecer que a evolução de conflitos militares é altamente imprevisível. Não há como antecipar com segurança os próximos passos, seja uma escalada, uma mediação diplomática ou uma resolução rápida. Nossa abordagem, portanto, se baseia em cenários, probabilidades e gestão de risco, e não em previsões categóricas.
Desde a eclosão do conflito, observamos ao longo dessa primeira semana o clássico movimento de aversão a risco: bolsas globais em queda, petróleo e dólar em alta. Vale ressaltar o papel do dólar como hedge relevante e sólido, sendo o único ativo que efetivamente funcionou como proteção nesse momento, mesmo diante da narrativa de desvalorização da moeda americana e da recente valorização dos metais preciosos, que não se comportaram como porto seguro nesse primeiro instante. Quando recorremos à análise de conflitos anteriores semelhantes, identificamos um padrão consistente: estresse nos ativos de risco no curto prazo (até um mês), com reversão em janelas mais longas (acima de seis meses), conforme a tabela abaixo, a qual sintetiza o comportamento da bolsa norte-americana e do dólar em sete conflitos relevantes no Oriente Médio, em janelas de 1 semana, 1 mês, 6 meses e 12 meses:

O principal canal de transmissão deste conflito para a economia global é o mercado de petróleo. O Irã controla o Estreito de Ormuz, o ponto de passagem mais crítico do comércio global de energia, por onde transitam aproximadamente 20% de todo o petróleo mundial. A alta da commodity reflete o receio de que esse canal permaneça fechado por um período prolongado, o que poderia gerar um choque inflacionário de oferta e desaceleração econômica global.
Como ressaltamos, o desfecho do conflito é extremamente incerto. Há questionamentos sobre a real capacidade do Irã de sustentar o conflito e, consequentemente, manter o fechamento do Estreito por tempo prolongado, com alguns dados já apontando para uma redução no volume de mísseis e drones enviados pelas tropas iranianas desde o início da operação. Nesse cenário, uma rápida recuperação dos preços dos ativos é plenamente plausível.
No Brasil, seguimos refém do fluxo para emergentes, que fez com que a B3 registrasse entrada líquida de mais de R$ 40 bilhões de capital estrangeiro até o final de fevereiro e o Ibovespa atingisse os 190 mil pontos. No entanto, o estresse geopolítico já fez com que o índice recuasse cerca de 10 mil pontos na primeira semana de março, reforçando a vulnerabilidade dos ativos locais ao humor externo, tanto em momentos positivos quanto negativos.
No espectro econômico doméstico, o cenário segue conforme o esperado. O PIB do quarto trimestre confirmou a desaceleração em curso da atividade, mas a economia ainda fechou o ano com expansão de 2,3%. A inflação melhora na margem, embora setores mais sensíveis ao mercado de trabalho permaneçam pressionados. Esse pano de fundo parece benigno o suficiente para que o Banco Central inicie o ciclo de cortes de juros na próxima reunião do Copom, dado o atual nível de contração da política monetária. No entanto, um novo risco altista advindo da alta do petróleo deve ser levado em consideração e, a depender da duração do conflito, pode interferir na magnitude do ciclo.
Por fim, o noticiário político ganha destaque crescente com a proximidade das eleições de 2026. As pesquisas mais recentes apontam para uma disputa cada vez mais acirrada entre os dois principais candidatos ao Executivo. De um lado, Lula enfrenta aumento da desaprovação mesmo em um contexto de inflação cadente e com o programa de isenção de Imposto de Renda para rendas de até R$ 5.000 começando a fazer efeito. De outro, Flávio Bolsonaro tem avançado nas pesquisas e reduzido sua rejeição, tornando o pleito mais competitivo. O mercado tende a interpretar uma disputa equilibrada como sinalizadora de possível alternância de poder, o que tende a reduzir o prêmio de risco. Por ora, o cenário externo deve continuar sendo o fator mais determinante para a dinâmica dos preços, tanto internacionais quanto domésticos.
Diante desse quadro, mantemos postura cautelosa no curto prazo, com atenção especial à evolução do conflito e ao comportamento do petróleo. Seguimos monitorando os desdobramentos e ajustaremos nossas alocações conforme o cenário se clarifica.
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