Carta menssal Ghia MFO – Fevereiro 2026

Em busca de um porto seguro

Nas oito décadas de relativa paz que o mundo viveu desde o fim da Segunda Guerra Mundial, a geopolítica às vezes se transforma em um ruído de fundo, facilmente ignorado em meio às diversas outras variáveis que influenciam os mercados. Porém, em alguns momentos, somos obrigados a relembrar que os conflitos de poder entre os países são tão relevantes, se não mais, que a próxima decisão de política monetária ou a última divulgação de dados macroeconômicos.


O mês de janeiro foi um exemplo claro disso. Primeiro, a invasão da Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro pelos EUA, depois a repressão violenta de protestos contra o regime iraniano e as tensões em torno de uma possível anexação à força da Groenlândia pelos norte-americanos. As questões da Venezuela e da Groenlândia, especialmente, aumentaram a percepção de instabilidade gerada pelo governo de Trump, impulsionando o movimento de debasement, isto é, de perda de confiança no dólar, seja em detrimento de outras moedas ou de metais preciosos.


Esse movimento também tinha como um dos principais vetores a incerteza em relação à nomeação de Trump para o próximo presidente do Fed, a instituição responsável por conduzir a política monetária e promover a estabilidade do sistema financeiro norte-americano. O temor dos investidores era a escolha de alguém que tivesse uma influência mais política do que técnica, buscando a queda da taxa de juros a qualquer custo. Contudo, o que se concretizou foi a indicação de Kevin Warsh, um ex-membro do Fed, que parece ser um meio termo que agrada tanto Trump quanto o mercado. Com isso, o ouro e a prata, que chegaram a máximas históricas em janeiro, sofreram forte correção no final do mês.


Apesar desse fator de alívio no curto prazo, as preocupações dos investidores continuam. Desde que começou o mandato, o segundo governo de Trump tem sido marcado pelo vai e vem das tarifas comerciais, pelas constantes críticas ao Fed e ao seu atual presidente, pelas relações tensas com os demais países da OTAN e por atitudes que contrariam as normas internacionais. Isso gera uma corrosão da visão dos EUA como bastião de estabilidade do sistema, e leva os investidores a buscarem maior diversificação, depois de anos de concentração nos ativos norte-americanos. Com isso, os ativos dos países emergentes registraram mais um mês de forte performance. O Ibovespa, por exemplo, registrou alta de 12,6%, voltando a negociar na média do P/L histórico, e o dólar desvalorizou 5% em relação ao real.


O P/L é uma métrica que indica quanto o mercado está pagando por uma empresa em relação ao lucro que ela gera. Assim, uma comparação histórica pode indicar se uma ação (ou índice) está negociando abaixo, acima ou em linha com a média, ajudando a balizar, em conjunto com outras métricas, quanto de prêmio pode ser capturado. Nesse sentido, depois da boa performance dos últimos meses, gerada pela entrada de fluxo estrangeiro, o nível de desconto da bolsa brasileira diminuiu significativamente.

Apesar desse bom humor externo, não podemos esquecer que o Brasil ainda tem importantes questões a endereçar, entre elas, a trajetória preocupante das contas públicas e as eleições presidenciais no final do ano. Já no aspecto macroeconômico, a resiliência do mercado de trabalho e as pressões do componente de serviços sobre a inflação ainda preocupam a autoridade monetária. Mas, diante da desaceleração da inflação e da atividade nos últimos meses, o COPOM sinalizou que “antevê, em se confirmando o cenário esperado, iniciar a flexibilização da política monetária em sua próxima reunião”. Isto é, o início do ciclo de corte de juros deve ocorrer em março, em linha com as nossas expectativas. A partir disso, as empresas brasileiras devem registrar alívio nas despesas financeiras, o que é uma boa notícia para os investidores de bolsa.


Nos EUA, a autoridade monetária também optou pela manutenção do patamar atual de juros, considerando uma dinâmica em que a economia permanece resiliente, o mercado de trabalho não apresentou piora adicional e a inflação segue com pressões no componente de bens, mas que devem se dissipar. Nesse sentido, a avaliação é de que os mandatos de inflação e emprego estão menos tensionados e de que a política atual está bem posicionada, de modo que as próximas decisões estão em aberto. O mercado antevê dois cortes ao longo de 2026.


Diante desse cenário que se desenha, seguimos com uma postura construtiva, porém cautelosa. Os ativos brasileiros, em especial a bolsa, já não estão tão descontados quanto víamos nos anos anteriores, mas também não podemos ignorar a força do grande fluxo de entrada de capital para países emergentes, o qual parece, pelo menos no curto prazo, se sobrepor às questões internas que precisam ser endereçadas.

*Este material foi elaborado e para uso exclusivo do destinatário final, e tem objetivo meramente informativo. As informações contidas neste documento não representam ou constituem nenhuma estratégia, recomendação ou oferta de compra ou venda de nenhum título ou valor mobiliário descrito neste relatório, não havendo garantia de que o investimento em qualquer programa ou estratégia aqui discutido(a) será lucrativo ou que não acarretará perdas para o investidor. O preço ou valor de cada título é flutuante e pode oscilar em razão de determinados riscos, que incluem, mas não se limitam ao risco de mercado, risco de taxa de juros, risco de inflação e risco de evento. Tais riscos são adicionais aos riscos específicos ou diversificáveis associados a estilos ou estratégias de investimento específicos. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. Antes de realizar qualquer operação de investimento, consulte seu planejador financeiro para garantir que todas as circunstâncias foram devidamente consideradas.

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