Carta mensal Ghia MFO – Novembro/2025

Dirigindo na névoa

Se imagine dirigindo em uma rodovia que não conhece. Você não quer se atrasar para seu destino, mas sem conhecer a estrada, é perigoso ir rápido demais. Imagine agora que uma névoa densa se instala e seu campo de visão fica curto, mal consegue enxergar os faróis dos carros, muito menos a sinalização. Nessa situação, não há sentido em seguir em frente no mesmo ritmo: é mais seguro encostar assim que possível e esperar as condições melhorarem, mesmo que te atrase. Essa lógica é parecida com a de um Banco Central que precisa trabalhar sem dados oficiais da economia.


Claro, a analogia não é perfeita. Mas foi assim que o próprio presidente do Fed, Jerome Powell, descreveu a situação do banco central estadunidense ao sinalizar que, sem os dados econômicos oficiais em mãos, será difícil argumentar por um novo corte de juros em dezembro. De fato, a paralisação do governo federal dos EUA, ao incluir as agências estatísticas responsáveis por mensurar e divulgar as variáveis macroeconômicas, tirou a clareza de conjuntura não só do Fed, mas também do mercado, que foi pego no contrapé pela cautela adicional sinalizada pela autoridade monetária. Com isso, as apostas por um corte de juros na reunião de dezembro, antes um consenso avassalador, agora se mostram mais divididas.

No entanto, mais importante do que o timing exato do próximo corte de juros é o pano de fundo macroeconômico que o justifica: nem todos os ciclos de alívio monetário são iguais. Faz diferença se a autoridade monetária corta os juros para salvar a economia de uma recessão, se o faz porque a inflação chegou à meta ou para posicionar a taxa de juros em um patamar neutro, visando reagir a um balanço de riscos mais incerto. O pior dos casos para os preços dos ativos seria, certamente, o primeiro; o segundo seria o melhor; o último, também benigno, é o que mais se aproxima da realidade atual.

Mesmo sem os dados mais recentes, Powell ponderou que o mercado de trabalho não ameaça queda abrupta do nível de emprego, mas parece exigir, sim, algum suporte da autoridade monetária. Continuou ponderando que, com os riscos inflacionários ainda presentes e sinais de robustez da atividade econômica nas pesquisas qualitativas, o Fed há de perseguir a neutralidade da política monetária de forma gradual e atenta, numa economia que pode retomar o ritmo.

A dose extra de cautela não impediu que as bolsas globais continuassem se beneficiando dos fluxos de capital ainda dispostos a tomar risco. Nos EUA, as surpresas positivas no bottom line de boa parte das empresas no 3T25 impulsionou a NASDAQ e o S&P500, que avançaram 4,7% e 2,3% no mês, respectivamente. Os influxos para ativos americanos contribuíram para nova valorização do dólar, com o índice DXY subindo 2,5% no mês para se aproximar novamente dos 100 pontos. O apetite também por mercados emergentes contribuiu para a performance robusta de suas bolsas e ecoou em novos recordes do Ibovespa, que por pouco não chegou à marca de 150 mil pontos ainda em outubro com o avanço de 2,3% no mês, até os 149,5 mil pontos. De fato, a performance da bolsa brasileira no ano se dá, justamente, pela disposição dos capitais internacionais de se posicionarem amplamente nos mercados emergentes, não refletindo, necessariamente, seus fundamentos.

Domesticamente, a divulgação normal dos indicadores econômicos reforçou que a economia brasileira continua convergindo gradualmente para o cenário de moderação perseguido pelo Banco Central. Os dados mais benignos de inflação motivaram revisões amplas das expectativas inflacionárias e deram fôlego à performance dos índices de renda fixa, mas a resiliência do mercado de trabalho deu insumos para o Copom manter a comunicação conservadora, sinalizando estabilidade da Selic nas próximas decisões de política monetária. A gestão da política monetária tem demonstrado, até então, grande disposição em retomar a credibilidade ligada à reputação de um Banco Central conservador.

Na frente política, nos atentamos à possibilidade de o governo federal se tornar mais proativo em políticas econômicas que impactem as eleições de 2026. Isso fragiliza as perspectivas de um reordenamento liberal da economia no próximo mandato presidencial e chacoalha as apostas do mercado no chamado trade eleitoral. Este é um risco que ainda não começou a pautar os preços de ativos domésticos, mas deve promover volatilidade ao longo do ano que vem, mesmo com os fluxos de capital internacional em direção à bolsa brasileira.

Neste cenário, tal como quem dirige sob neblina densa, o investidor precisa seguir em frente, mas com atenção redobrada. A névoa conjuntural não se restringe, necessariamente, à falta de dados nos EUA. No Brasil, embora a economia demonstre uma moderação gradual e os dados de inflação benignos deem suporte a perspectiva de alívio nos juros em 2026, a camada de incerteza ligada ao risco político no ano que vem ainda exige monitoramento constante. Portanto, mantivemos nossa alocação neutra em bolsa brasileira, ancorados na postura de diversificação e gestão de risco para navegar as volatilidades que devem pautar o próximo ano.

*Este material foi elaborado e para uso exclusivo do destinatário final, e tem objetivo meramente informativo. As informações contidas neste documento não representam ou constituem nenhuma estratégia, recomendação ou oferta de compra ou venda de nenhum título ou valor mobiliário descrito neste relatório, não havendo garantia de que
o investimento em qualquer programa ou estratégia aqui discutido(a) será lucrativo ou que não acarretará perdas para o investidor. O preço ou valor de cada título é flutuante e pode oscilar em razão de determinados riscos, que incluem, mas não se limitam ao risco de mercado, risco de taxa de juros, risco de inflação e risco de evento. Tais riscos
são adicionais aos riscos específicos ou diversificáveis associados a estilos ou estratégias de investimento específicos. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. Antes de realizar qualquer operação de investimento, consulte seu planejador financeiro para garantir que todas as circunstâncias foram devidamente consideradas.

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