Carta mensal Ghia MFO – Junho 2026

A volta de um antigo fantasma

Depois de três meses do início do conflito entre EUA e Irã, os efeitos ainda podem ser observados nos ativos. O cessar-fogo continua em vigência, mas sobre bases frágeis, constantemente ameaçadas pela situação entre Israel e Líbano, e o fluxo de petróleo, gás natural e derivados ainda não foi restabelecido, dificultando um alívio adicional nos preços dessas commodities. Enquanto essa indefinição se prolonga, os investidores voltam suas atenções para os dados de inflação ao redor do mundo.


Nos EUA, o forte avanço do componente de combustíveis continuou a preocupar e, agora, além de uma curva de juros que abriu em todos os vencimentos, temos a precificação de uma alta de juros ainda em 2026. Os próprios membros do FOMC também indicam uma postura mais hawkish diante dos riscos ao mandato de inflação. Contudo, as ações norte-americanas seguem mostrando uma dinâmica própria, na qual os fundamentos microeconômicos superam o contexto macro. Mais especificamente, os ótimos resultados apresentados pelas empresas de tecnologia voltaram a atrair os investidores. Esse fluxo de capital também foi direcionado a países emergentes que possuem empresas ligadas ao tema de IA, como Coreia do Sul e Taiwan, que registraram, apenas em maio, retornos de 28% e 14% em dólares, respectivamente.


O Brasil, por sua vez, ficou de fora desse bom momento para os emergentes e o Ibovespa registrou uma forte correção no mês, de -7,2%. O primeiro vetor que contribuiu para essa queda foi o fluxo estrangeiro, que sustentou os ganhos da bolsa local nos primeiros meses do ano, mas foi na direção oposta em maio, representando uma saída de mais de R$14 bilhões. Além disso, a deterioração do cenário inflacionário local, com consequente reprecificação da curva de juros brasileira, impactou diretamente os ativos de risco.


Nos últimos meses temos visto números de inflação mais altos do que o esperado, os quais, se analisados em conjunto, indicam uma tendência de piora qualitativa. Apesar do conflito no Irã também impactar o IPCA por meio do aumento dos custos de petróleo e derivados, a realidade é que diversos componentes que estão pouco relacionados a essas cadeias também estão mais pressionados. Talvez esse seja o efeito das diversas políticas implementadas pelo governo nos últimos anos e que têm impulsionado a atividade econômica, mesmo no ambiente de juros altos.


No cabo de guerra entre política monetária contracionista e política fiscal expansionista, o COPOM parece ser o perdedor. É por isso que vimos a forte reprecificação nas expectativas dos investidores. Por exemplo, o Focus agora projeta IPCA de 5,09% para 2026 e 4,02% para 2027. A meta é de 3%, com banda superior de 4,5%. Diante disso, a tarefa da autoridade monetária fica cada dia mais complexa, e a reunião de junho será crucial para esclarecer quais serão os próximos passos. No começo do ano, o mercado precificava um ciclo de afrouxamento que poderia trazer a Selic para a casa dos 12%, mas hoje não é precificado mais nenhum corte de juros.

Além disso, não podemos esquecer que temos um evento binário no final do ano: as eleições presidenciais. As pesquisas mais recentes apontam que o vazamentos das conversas entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro prejudicaram a campanha do senador e trouxeram alívio marginal para a campanha de Lula. Contudo, há ainda um longo caminho até as eleições de fato, o que dá chances de recuperação para o candidato da direita. De todo modo, continuamos acompanhando de perto os desenvolvimentos desse processo que definirá os rumos do país e dos ativos brasileiros, nos próximos anos.


Em termos de alocação, ficamos mais cautelosos diante das movimentações recentes na curva de juros, mas seguimos com postura equilibrada nos portfólios, entendendo a necessidade de proteção diante da deterioração do cenário macroeconômico local, mas também de oportunidade de capturar ganhos em ativos beneficiados pelos ventos externos ou por uma alternância de poder.

*Este material foi elaborado e para uso exclusivo do destinatário final, e tem objetivo meramente informativo. As informações contidas neste documento não representam ou constituem nenhuma estratégia, recomendação ou oferta de compra ou venda de nenhum título ou valor mobiliário descrito neste relatório, não havendo garantia de que o investimento em qualquer programa ou estratégia aqui discutido(a) será lucrativo ou que não acarretará perdas para o investidor. O preço ou valor de cada título é flutuante e pode oscilar em razão de determinados riscos, que incluem, mas não se limitam ao risco de mercado, risco de taxa de juros, risco de inflação e risco de evento. Tais riscos são adicionais aos riscos específicos ou diversificáveis associados a estilos ou estratégias de investimento específicos. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. Antes de realizar qualquer operação de investimento, consulte seu planejador financeiro para garantir que todas as circunstâncias foram devidamente consideradas.

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