Carta mensal Ghia MFO – Agosto 2025

Tarifas, Narrativas e o Tabuleiro Eleitoral

Caros leitores,

Em nossa última carta, fizemos uma avaliação do desempenho dos ativos no primeiro semestre do ano e, na ocasião, destacamos a surpreendente performance positiva da bolsa brasileira, que ocorreu não por melhora dos fundamentos domésticos, mas por uma conjunção de fatores externos que acabaram trazendo fluxo para a bolsa local. Um deles, quiçá o mais importante, foi o fato de termos saído quase ilesos pelas ofensivas tarifárias de Donald Trump na primeira metade do ano.

O cenário claramente mudou. Talvez a ausência de consequências negativas relevantes na atividade econômica, na inflação e nos mercados financeiros tenha estimulado o presidente norte-americano a dar início à segunda ofensiva tarifária, e vários países foram “agraciados” com cartas do governo dos Estados Unidos no último mês.

Na segunda temporada da novela tarifária, um coadjuvante da primeira fase foi promovido a protagonista: um país que historicamente mantém boas relações diplomáticas com a Casa Branca e que, pasmem, ainda registra déficit comercial com os Estados Unidos. Sim, o Brasil foi o plot twist dessa temporada, ao receber a famigerada carta no dia 9 de julho, com o anúncio de tarifas de 50% sobre todos os seus produtos exportados. Diferentemente de outras comunicações, que se baseavam em argumentos comerciais, o caso brasileiro foi abertamente justificado por razões políticas, relacionadas à investigação contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Apesar de os impactos macroeconômicos não serem muito relevantes, ainda mais após a divulgação da lista de isenções para diversos setores, Trump acabou reacendendo a popularidade decadente de Lula ao entregar, de bandeja, a narrativa do “nós contra eles”. E o atual presidente do Brasil, como poucos, sabe explorar narrativas a seu favor, o que fez o mercado questionar o trade eleitoral que contava com uma mudança no Executivo no próximo ano. Com esse pano de fundo, o Ibovespa devolveu parte do ganho acumulado no primeiro semestre, ao registrar queda de 4,2% no último mês.

Enquanto o cenário político adicionava ruído aos preços dos ativos, os dados domésticos começaram a reforçar uma outra dinâmica: a da desaceleração econômica. A política monetária restritiva começa a surtir efeito, e a apreciação do real tem contribuído para um alívio marginal da inflação. Combinado a isso, o cenário externo mais favorável, com dólar mais fraco e possível corte de juros nos EUA, pode abrir espaço para que o Copom inicie um novo ciclo de afrouxamento ainda este ano.

Acreditamos que esse contexto seja positivo para os ativos de risco locais, mas o fator eleições 2026 pode limitar os ventos favoráveis. Uma vez que está claro que o atual governo não pretende endereçar a questão fiscal — pelo menos não pelo lado das despesas —, o mercado se apega à ideia de um candidato de centro-direita que seja capaz de superar Lula e pautar projetos impopulares, mas fundamentais para a sustentabilidade das contas públicas brasileiras no longo prazo.

Em suma, enxergamos um cenário potencialmente construtivo para a bolsa brasileira, especialmente diante da perspectiva de queda de juros e valuations atrativos. No entanto, a dinâmica eleitoral deve continuar gerando volatilidade nos próximos meses. Por isso, optamos por adotar uma postura mais cautelosa por ora.


*Este material foi elaborado e para uso exclusivo do destinatário final, e tem objetivo meramente informativo. As informações contidas neste documento não representam ou constituem nenhuma estratégia, recomendação ou oferta de compra ou venda de nenhum título ou valor mobiliário descrito neste relatório, não havendo garantia de que o investimento em qualquer programa ou estratégia aqui discutido(a) será lucrativo ou que não acarretará perdas para o investidor. O preço ou valor de cada título é flutuante e pode oscilar em razão de determinados riscos, que incluem, mas não se limitam ao risco de mercado, risco de taxa de juros, risco de inflação e risco de evento. Tais riscos são adicionais aos riscos específicos ou diversificáveis associados a estilos ou estratégias de investimento específicos. Rentabilidade passada não é garantia de rentabilidade futura. Antes de realizar qualquer operação de investimento, consulte seu planejador financeiro para garantir que todas as circunstâncias foram devidamente consideradas.

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