Sob a Névoa do Estreito
Em nossa última carta mensal, comentamos sobre a eclosão do conflito entre Estados Unidos e Irã e a importância de trabalhar com cenários e probabilidades diante de eventos geopolíticos imprevisíveis. Março confirmou essa imprevisibilidade. O conflito se intensificou, o Estreito de Ormuz permaneceu fechado e os mercados globais viveram o mês mais adverso desde 2022, com quedas generalizadas em praticamente todas as classes de ativos.
O principal canal de transmissão para a economia global continua sendo o petróleo. O Estreito de Ormuz, por onde transitam aproximadamente 20% de toda a produção mundial, seguiu bloqueado ao longo do mês. Tanto o WTI quanto o Brent alcançaram patamares próximos dos observados em 2022. Mas o impacto não se restringe à energia: por esse estreito passam também cerca de 30% dos fertilizantes comercializados no mundo, o que pode afetar a safra de grãos nos Estados Unidos e pressionar o preço dos alimentos nas cestas de inflação globais.
A reação dos mercados foi o clássico movimento de aversão a risco: bolsas em queda, curvas de juros abrindo, petróleo e dólar em alta. O ouro, que vinha de um rali expressivo no começo do ano, recuou quase 11% em março e não cumpriu seu papel de porto seguro. Quem de fato funcionou como hedge foi o dólar, com o DXY valorizando cerca de 2,5% no mês.
Esse cenário nos remeteu a 2022, quando renda fixa e renda variável caíram juntas e o portfólio diversificado de 60/40 não entregou proteção. Contudo, o pano de fundo é bem diferente. Em 2022, tínhamos choques de oferta (guerra na Ucrânia e cadeias produtivas restritas no pós-pandemia) combinados com um choque positivo de demanda (estímulos fiscais e monetários coordenados globalmente), que juntos geraram uma espiral inflacionária sem precedentes recentes. Hoje, temos um choque negativo de oferta em um produto específico, sem o componente de demanda anabolizada. A intensidade é menor e a probabilidade de ser temporário, maior. Obviamente, caso o conflito se prolongue, os riscos são relevantes.
Enquanto finalizamos esta carta, na manhã de hoje, 8 de abril, foi anunciado um cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Paquistão. O acordo prevê a suspensão dos ataques americanos em troca da reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã durante o período de trégua. A reação dos mercados foi imediata: o petróleo chegou a cair cerca de 16% nas primeiras horas, e os futuros das bolsas americanas dispararam, com o S&P 500 subindo quase 3% no pré-mercado. Negociações mais amplas estão previstas para esta sexta-feira em Islamabad. É uma notícia positiva, sem dúvida, mas é preciso cautela: trata-se de um acordo temporário e condicional, com diferenças relevantes de interpretação entre as partes. O petróleo, mesmo após a queda, segue bem acima dos patamares pré-conflito. Seguimos monitorando de perto os desdobramentos.
Nos Estados Unidos, a economia segue resiliente. O PMI industrial voltou a registrar expansão pelo terceiro mês consecutivo e o mercado de trabalho surpreendeu positivamente: o payroll de março mostrou criação líquida de aproximadamente 170 mil vagas, revertendo o dado fraco de fevereiro, e a taxa de desemprego recuou de 4,4% para 4,3%. Esse quadro benigno, aliado a uma inflação mais pressionada (agora não apenas pelo setor de serviços, mas também pela alta de energia e pela reprecificação de bens via tarifas), eliminou qualquer expectativa de corte de juros pelo Fed em 2026. O mercado já não precifica nenhum corte para o ano.
No Brasil, os ativos domésticos demonstraram resiliência relativa notável a despeito do cenário externo adverso. O Ibovespa recuou apenas 0,7% no mês, amparado pela alta de Petrobras, e o real desvalorizou somente 1,4%, encerrando março próximo de R$ 5,22. No acumulado do ano, o EWZ lidera entre os principais emergentes com alta de cerca de 20%, bem à frente de Peru (+11%), México (+8%) e do índice geral de emergentes (+8%). Essa resiliência pode ser atribuída a dois fatores: o superávit na balança comercial de petróleo e o elevado diferencial de juros que ainda sustenta a atratividade do real.
No espectro econômico doméstico, os dados do primeiro trimestre apontam para uma recuperação após o quarto trimestre fraco de 2025. O IBC-Br de janeiro surpreendeu positivamente, e os dados setoriais de produção industrial, varejo e serviços também mostraram retomada. Do lado da inflação, o IPCA-15 de março veio novamente acima do esperado, pressionado por passagens aéreas e pelo setor de serviços, que segue rodando acima de 6% no acumulado de três meses anualizado. Vale lembrar que os preços de passagens aéreas no IPCA possuem uma defasagem de cerca de dois meses, então o impacto da alta do petróleo e do querosene de aviação ainda nem apareceu nos dados. As projeções do Focus para o IPCA de 2026 saltaram de 3,9% para 4,36%.
Diante desse quadro, o Copom optou por um corte de 25 pontos-base em março, abaixo dos 50 pontos-base que eram esperados antes da eclosão do conflito. O Banco Central deixou claro que se trata de um ajuste calibrado para evitar que a política monetária fique excessivamente contracionista, e não o início de um ciclo agressivo de flexibilização. A continuidade do ritmo de cortes dependerá essencialmente do cenário externo.
No campo político, as pesquisas mais recentes mostram uma disputa cada vez mais acirrada entre Flávio Bolsonaro e Lula no segundo turno. A pesquisa da AtlasIntel com a Bloomberg já aponta Flávio ligeiramente à frente pela primeira vez, e a desaprovação do governo Lula segue em trajetória ascendente. O mercado interpreta essa competitividade como sinal de possível alternância de poder, o que tende a reduzir o prêmio de risco dos ativos locais.
Seguimos com postura cautelosa no curto prazo, mas construtiva em relação às oportunidades que a volatilidade cria. Os sinais de que o fluxo estrangeiro pode retomar com força para ativos brasileiros uma vez superado o estresse geopolítico são encorajadores. Em cada dia de notícias marginalmente positivas ao longo de março, o Ibovespa subiu 2% a 3% com entrada relevante de capital externo. Os portfólios permanecem defensivos, protegidos pelo carrego elevado da renda fixa, mas posicionados para capturar uma eventual recuperação dos ativos de risco.
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